Pesquisa mostra que segurança, desigualdade e mobilidade lideram preocupações sobre a cidade do Rio

RJ CIDADES – REDAÇÃO – 30 DE JULHO DE 2026 – O estudo Transforma Cities, desenvolvido pela consultoria latino-americana Casa Mundo Latam, propõe uma nova perspectiva sobre o Rio de Janeiro: olhar a capital fluminense como um organismo vivo, composto por pessoas, histórias, identidades e relações. O levantamento busca compreender como o conhecimento detalhado sobre os territórios pode orientar políticas públicas, iniciativas privadas e ações sociais mais humanas, sustentáveis e eficientes.

A pesquisa foi construída a partir de uma metodologia integrativa, reunindo dados quantitativos do levantamento Rio Além da Bolha, pesquisas qualitativas, entrevistas com 13 especialistas de áreas diversas (como inovação, cultura, sustentabilidade, direito à cidade e empreendedorismo) e referências de transformação urbana nacionais e internacionais. A idealização do projeto é assinada por Adriana Hack (fundadora da Casa Mundo Latam) e Fátima Rendeiro (líder da Rendeiro Consult e diretora do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro).

1. O Contraste Entre o Cartão-Postal e a Cidade Real
O levantamento evidencia um contraste marcante na identidade carioca. Por um lado, o Rio é reconhecido globalmente por suas paisagens naturais, vocação turística, economia criativa dinâmica e pelo posto de segundo maior PIB do país, sendo berço de manifestações culturais como o samba, a bossa nova e o funk.

Por outro lado, a população convive diariamente com severas desigualdades sociais e territoriais. O estudo aponta barreiras físicas e simbólicas que separam o Centro, a Zona Sul, a Zona Norte e as favelas, somadas a gargalos de mobilidade urbana que dificultam a circulação entre as regiões. Também é destacada a fragilidade de articulação entre o setor público, empresas, comunidades e instituições, o que faz com que excelentes projetos de impacto local permaneçam isolados e percam força coletiva.

Percepções e Desafios Prioritários
Conforme os dados reunidos pelo estudo:

Segurança Pública (99%): Apontada por quase a totalidade dos entrevistados na pesquisa como o principal fator que prejudica o dia a dia e a imagem da cidade.

Formação e Capacitação (73%): Mencionadas pelos especialistas entrevistados como um dos maiores desafios estruturais para o desenvolvimento.

Desigualdade Social (70%): Destacada como barreira central para a integração urbana.

Ambiente de Negócios (54%): Citado como um fator crucial a ser aprimorado para a geração de oportunidades.

Os resultados demonstram que, embora a violência seja a preocupação mais imediata dos moradores, os desafios percebidos pelos especialistas vão além da segurança, envolvendo fatores estruturais de desenvolvimento social, educação e capacidade de gerar trabalho e renda.

2. Inovações Locais e Referências Internacionais
Apesar dos gargalos, o estudo enfatiza que o Rio de Janeiro conta com diversos movimentos de transformação em curso. Diferentes iniciativas utilizam o conhecimento local para gerar impacto real em suas comunidades.

Projetos Mapeados no Rio
Iniciativas Comunitárias e Culturais: Redes da Maré, Casa Amarela, Feira das Yabás, Favela Orgânica, Lab Jaca, Gato Mídia, Flup RJ e Afrofunk Rio. Todas compartilham a característica de nascerem a partir do protagonismo comunitário e do saber territorial.

Revitalização da Zona Portuária: Ações estruturais como a derrubada do Elevado da Perimetral, a implementação do VLT e a criação do Museu do Amanhã e do Museu de Arte do Rio (MAR) reconfiguraram a região. A chegada do Porto Maravalley consolida o espaço como um hub de tecnologia, inovação e economia criativa.

Pequena África e Afroturismo: Ações focadas no fortalecimento da memória afro-brasileira e no afroturismo demonstram a união entre identidade cultural e desenvolvimento econômico, exemplificado pelo investimento de R$ 5 milhões do BNDES no programa Viva Pequena África.

O Exemplo de Medellín
Como referência internacional, o estudo analisa o caso de Medellín, na Colômbia. A cidade superou o estigma histórico da violência ao investir em regeneração urbana integrada, unindo transporte público, equipamentos culturais, educação e ocupação do espaço público a partir das demandas de cada bairro.

3. A Metodologia do Transforma Cities
A metodologia proposta para orientar intervenções urbanas divide-se em quatro etapas fundamentais:

Mapeamento: Identificar experiências e boas práticas internas e externas que sirvam de inspiração.

Resgate Histórico: Reconstruir a trajetória, marcos e desafios do território.

Identificação do “DNA”: Compreender a identidade cultural, simbólica e social do local.

Conexão Humana: Colocar os moradores no centro do processo decisório.

Segundo as autoras, intervenções pontuais — como a praça revitalizada ou um novo equipamento cultural — transformam a dinâmica socioemocional do entorno. Por isso, escutar quem vive o local é indispensável para criar soluções duradouras.

4. A Comunicação como Ferramenta de Transformação
Um dos pontos centrais do estudo refere-se ao papel da narrativa sobre a cidade. Na pesquisa Rio Além da Bolha, 83% dos entrevistados afirmaram que o Rio de Janeiro precisa comunicar seus pontos positivos de forma mais consistente.

Quando a narrativa midiática e pública foca exclusivamente nos problemas e na violência, silencia-se o sentimento de pertencimento e invisibilizam-se as potências e inovações já existentes. Comunicar, segundo o Transforma Cities, é uma ferramenta estratégica para aproximar o poder público, empresas e comunidades em prol de uma visão de futuro compartilhada.

O estudo e suas conclusões serão apresentados formalmente por Fátima Rendeiro no painel “Territórios, Identidade e Vocação: o futuro nasce do lugar”, durante o evento Rio Innovation Week.

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